Me chamo Juca. Juca da Mata, porque passei a vida dentro dela.
Nasci no meio do mato. Filho de lavrador. Aprendi a ler a mata antes de aprender a ler letra. Com 14 anos já me chamavam quando alguém sumia no mato, porque eu achava.
Passei a vida adulta guiando. Equipe de mapa, gente de pesquisa, gente da cidade que ia entrar sozinha e não ia sair. Vi homem forte morrer por erro bobo. Vi menino franzino sobreviver por saber uma coisa só. Aprendi mais com o erro dos outros do que com o meu acerto.
E aprendi com meu pai. Ele não tinha estudo. Tinha uma casa que não faltava nada, com quase nenhum dinheiro. Sabia guardar carne sem geladeira, achar água onde não tinha, fazer sabão, fazer botijão render, fazer a terra dar. Tudo isso ele me passou. Nada disso ele escreveu.
Hoje eu já passei dos setenta faz tempo. E olho pro lado e vejo que os velhos que sabiam essas coisas estão morrendo. E que isso não está em livro nenhum.
Então eu escrevi. Não é pra você virar mateiro. É pra você guardar o que ganha, do jeito que a minha família guardou por três gerações.
— Juca